Kate Weiss - Design e Poesia

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Pequeno conto de Natal
 
Ela olhava pela janela a paisagem que ia sendo deixada para trás. Não queria lembrar nunca mais dela.
Seu nome? Maria.
Levaria muitas horas ainda até que seu ônibus chegasse à cidade grande , tentaria a sorte em São Paulo, todo mundo diz que lá se faz a vida. O desconforto que sente por causa da barriga de quase nove meses ela compensa deitando a cabeça nos ombros do marido, José.
Ele acaricia seu rosto pensando que se ela dormisse, afinal , ele também poderia descansar.
Marceneiro, sonha que agora vai vencer na vida. é um bom homem, trabalhador e honesto,  mas o salário que ganhava no norte, não daria para o sustento de sua pequena família, e a decisão de Maria em procurar sua prima Isabel em São Paulo, e ter o filho deles por lá acalenta seu mais antigo sonho de ter uma marcenaria própria.
Dormem entremeio a solavancos da estrada, luzes de caminhões que encontram pelo caminho, tosse de outros passageiros que, como eles, também estão indo procurar um novo lar, crianças chorosas que não encontram conforto nas cadeiras do ônibus.
Finalmente, o ônibus chega à capital . Não na rodoviária, porque é um ônibus ilegal que traz passageiros para tentar a sorte no sul, chegam a uma parada de ônibus de bairro, consigo apenas uma bolsa com um pão com margarina que a mãe de Maria embrulhou em papel pardo e algumas frutas.
José não quer pensar na fome, Maria precisa se alimentar, pois gera o filho de ambos e ele sabe que precisa cuidar dela. Ele tira a rolha de uma garrafinha  e bebe um resto de "chá-de-café" - chá sim , pois é uma água com um pouquinho de café, está amargo. A água, um resto que havia em casa, foi resultado de uma grande caminhada até uma bica, e pensa José: quem sabe o que teria nessa água suja.
Ah! decididamente, seu filho terá vida melhor, sonha José. Na mão o bilhete com o endereço da prima de Maria, o bairro é Belém, certamente achará pois que ele pretende pedir informações  a alguma pessoa confiável, já lhe advertiram que ele não confiasse em quase ninguém, cidade grande é um perigo; ele sabe.
Quando estão saindo do ônibus, como que do nada aparece uma gang de piralhos, podem ter lá seus 12 a 14 anos, dizendo que entreguem tudo que têm, alguns querem reagir, não tem nada apenas algum para pagar uma passagem até o bairro dos parentes, mas o meninos, se é que se pode chamar assim "mini-bandidos", não querem saber de nada e estão armados... José protegeu Maria com seu corpo e estendeu a única nota de 20 reais que seu irmão lhe deu na rodoviária antes de partirem dizendo que era para qualquer emergência com Maria.
Muito desanimados e agora sem nada, José e Maria querem apenas o abrigo da casa de amigos inconformado procura em todos os bolsos das calças o bilhete. Nada.
Na confusão, José provavelmente deixou cair e não imagina onde.
Então, desesperados, em pleno anoitecer procuram abrigo. José precisa  encontrar um lugar onde fazer Maria deitar.
Ela está visivelmente cansada, não se queixa, mas, ele sente que por vezes ela se encolhe sentindo alguma dor. Passaram defronte uma pensão e pediram abrigo para aquela noite, mas a dona diz que não tem lugar. De porta em porta vão procurando, sem sucesso.
José olha Maria que, agora diz sentir as dores de parto e desesperado sugere que se sentem ao lado de um arremedo de casa, uma tosca construção feita com pedaços de papelão, logo os "proprietários" da casa veem o casal chegando e dizem que podem ficar ali até o amanhecer.
E dormem finalmente, junto ao cavalo que está atado a uma carrocinha e "Poderoso", o cãzinho da família.Os donos do casebre lhes  estendem um pedaço de cobertor para se agasalharem.
O dono da casa sai cedinho, madrugada ainda, para recolher papéis e diz que lhes mostra um hospital público que poderá atender Maria, mas avisa logo: - Precisa esperar na fila, Dona Maria.
Agradecidos eles aceitam a ajuda e se encaminham ao hospital. Como Maria tem muitas dores, os dois homens ajeitam um lugar para ela na carrocinha.
Chegam finalmente, a fila dobra a esquina e continua numa rua paralela, José e Maria olham desanimados quando de repente notam que é chegada a hora do nascimento do filho, Seu Jedimilson, o carroceiro sai correndo à procura de uma maca e volta com ela e dois enfermeiros , que desaparecem com Maria dentro do imenso hospital.
José se dá conta que nem haviam pensando em um nome bonito para o filho, e sentado nas escadarias fita, olhar absorto, a placa que sinaliza que ali é um hospital e decide: Vou dar o nome do meu filho homenageando este hospital que acolheu minha Maria, e o dono da casa que nos ajudou a chegar até aqui, já sei o nome que vamos dar, Je de Jedimilson e SUS  do hospital, isso mesmo, será: JeSUS da Silva.
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Com som: no site do Escritor:
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Kate Weiss
Enviado por Kate Weiss em 14/12/2014
Alterado em 14/12/2014

Música: Milonga pampeana - Glênio Fagundes

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